Como a maioria das grandes bandas, o Rush é resultado de um trabalho de vários anos que só veio ao público depois de muita estrada. Foram momentos de grande aprendizado, marcantes na história oficial do grupo. Tudo começou por volta de 1966 em Toronto (Canadá), quando o adolescente Alex Lifeson, de apenas 13 anos, topou com um garoto de sua idade chamado John Rutsey, que era baterista. Juntos, começaram a ensaiar um protótipo de banda que recebeu o nome de The Projection. Sem baixo, teclados e vocais, a aventura era, na verdade, apenas uma válvula de escape para os sonhos rock and roll dos jovens, com o jovem guitarrista hora emulando Jimi Hendrix e Eric Clapton e o baterista tentando simular as peripécias rítmicas de seu ídolo Keith Moon, do The Who.
Tratava-se apenas de uma bandinha de porão. Tocávamos em festas e nunca ganhávamos dinheiro. Éramos horríveis!" Alex tinha um amigo que havia conhecido durante as aulas de história do Fisherville Junior High School. Seu nome era Gary Lee, ou simplesmente Geddy. Geddy tinha uma guitarra e um amplificador que ocasionalmente emprestava a Lifeson, porém eles ainda não haviam tocado juntos até então. Percebendo a necessidade de aprimorar seu som, o Projection recrutou um outro rapaz, Jeff Jones, para assumir o baixo e os vocais. Com uma nova formação, o grupo decidiu mudar de nome. Bill Rutsey, o irmão mais velho de John, trouxe a sugestão: "Que tal Rush?". Feito. Um nome simples, mas com muita força, movimento, energia e urgência. Todas as características presentes no som do novo trio que ainda flutuava na onda psicodélica do final dos anos 60.
Em 1968 o grupo já havia fechado para se apresentar às sextas feiras no chamado Coff-In, local onde eram realizadas pequenas festas e que funcionava no porão de uma igreja anglicana. No repertório, seriam apresentadas canções como Gloria, do grupo Them e Satisfacton, dos Rolling Stones. Tudo correu normalmente na estréia, mas, pouco antes da segunda noite, o baixista Jeff Jones resolveu deixar o grupo. Lee, que nesse momento já havia desistido da guitarra e optado pelo baixo, foi então chamado pelo amigo Lifeson. Dessa vez não era o amplificador que Lifeson queria emprestado, e sim o baixista! Era formado assim o embrião do Rush. Os garotos foram aumentando seu repertório de covers, tocando músicas do Traffic, Cream, John Mayall's Bluesbreakers, Ten Years After e outros artistas do blues inglês até então. Com a qualidade musical sendo aperfeiçoada, o nome Rush começava a ecoar. Logo apareceram novas apresentações conseguidas pelo trabalho do jovem Ray Danniels, que já havia assumido a função de empresário do grupo. Em novembro de 1968 a banda ainda precisava pedir emprestado equipamentos para seus shows. Nesse período, um rapaz chamado Lindy Young, que era irmão de uma amiga de Alex, havia ganhado uma Gibson Firebird. Alex ficou encantado com a guitarra e persuadiu a amiga a convencer o irmão a emprestá-la. Lindy não apenas a emprestou como se ofereceu para tocar piano e algumas bases para o grupo. E isso aconteceu. Sua participação foi tão positiva que, em janeiro de 1969, o Rush fez seu primeiro show com um quarto membro.
A inclusão de Lindy Young deixou o som do grupo mais coeso. A popularidade dos garotos aumentava cada vez mais e as apresentações iam ficando mais freqüentes. Só que, de acordo com a história, um problema ocorreu: John Rutsey começou a ter ciúmes de Geddy Lee que, por ser o vocalista, chamava mais atenção nos shows. E, devido a isso, John convenceu Alex e Lindy a tirar Lee da banda, em maio de 1969. Para o lugar dele, entrou Joe Perna e os membros decidiram mudar o nome da banda. Sai Rush, entra Hadrian. Após deixar do Rush, Geddy entrou para uma banda de rhythm and blues chamado Ogilvie, que também era empresariado por Ray Danniels. É importante mencionar que, enquanto o antigo Rush tinha dificuldades para conseguir novos shows como Hadrian, a banda de Geddy Lee, que também já havia mudado de nome para Judd, começava a se destacar no circuito de points da cidade.
O mês seguinte marcou o fim do Hadrian. Lindy e Joe Perna abandonaram o barco e, em setembro do mesmo ano, era a vez do Judd também chegar ao fim. Sabendo que a banda de Lee também havia acabado, Lifeson decide chamá-lo para, junto com Rutsey, remontarem o Rush. Lee aceitou. Um fato curioso é que, até então, os vocais de Lee não eram tão agudos e nervosos. Ele só passou a cantar dessa forma por influência do primeiro disco de uma nova banda inglesa que surgia e encantava o mundo: Led Zeppelin. Não só os timbres vocais alteraram-se, mas também a relação dos três músicos como banda. Se antes haviam composto apenas uma primeira música, Losing Again, agora enriqueceriam as novas apresentações com Run Willie Run, Child Reborn e Number One. Até o início 1971, o Rush continuava a tocar somente em escolas e ginásios. Nesse período, decidiram trazer mais uma vez um quarto integrante, Mitch Bossi, que fazia a guitarra base. Logo Lee, Lifeson e Rutsey perceberam que Bossi encarava a banda apenas como um hobby e, assim, dispensaram-no. Em setembro desse mesmo ano todos os três integrantes já haviam completado 18 anos e isso permitia aos garotos apresentações em bares, pubs e clubes noturnos. Com isso, largaram o colégio e passaram a dedicar-se inteiramente a música, compondo cada vez mais material próprio, como Garden Road e Fancy Dancer.
Alex Lifeson aprofundou-se nos estudos de guitarra e, durante seis meses, em 1972, freqüentou aulas de violão clássico e flamenco. Com a ajuda de Ray Danniels, o grupo entrou no estúdio para registrar ao vivo suas melhores composições numa fita demo. Devido a um orçamento limitado, as sessões de gravação eram marcadas para altas horas da noite, quando o movimento na maioria dos estúdios era considerado fraco, tendo assim preços mais baratos - fato comum entre as estrelas do rock que ascenderam nesse período. Nessas sessões noturnas os rapazes gravaram canções como In The Mood e Working Man, entre outras. Na Toronto desse período, o que ganhava espaço nas rários era o soft rock. Como o Rush possuía uma pegada mais pesada, a demo foi relegada ao esquecimento e, infelizmente, perdida no tempo. Mesmo com todas as dificuldades, Ray Danniels não desistiu de encorajar os garotos. Convidou Vic Wilson, outro produtor artístico da área e, juntamente com ele, montou sua própria empresa de agenciamento e produção, a SRO Productions, além de um selo para lançar o material do Rush, o Moon Records. Nesse momento os integrantes do Rush já estavam mais profissionais e foram um pouco mais sofisticados em sua gravação seguinte, um single em 45 rotações com duas músicas. No lado A tínhamos uma versão para Not Fade Away, de Buddy Holly, o único cover que a banda havia gravado até então em toda sua pequena carreira. E no lado B havia You Can't Fight It, uma composição de autoria de Lee e Rutsey que já demostrava o estilo original do trio canadense. O single vendeu pouco, mas Danniels não se entregava, apostando tudo na força dos jovens músicos. A idéia da vez foi chamar David Stock, um produtor local de jingles e expert em estúdio. Começaram os trabalhos com Not Fade Away, seguindo também com as músicas que formariam o primeiro álbum oficial da banda.
O grupo não ficou feliz com o que ouviu após o término das gravações. Stock não havia conseguido captar a essência da sonoridade, deixando algumas músicas com timbres muito pobres. Com isso, o incansável Danniels não desistiu e resolveu, a partir do seu próprio bolso, a contratação de um produtor mais experiente (e mais caro). Começou então aí a relação do Rush com Terry Brown, que já havia trabalhado com bandas como Procol Harum e April Wine e, de cara, percebeu que as três primeiras músicas gravadas anteriormente com Stock apresentavam problemas e que mereciam passar por um outro processo de gravação. As outras faixas precisavam apenas de uma nova mixagem. Nesse momento, o trio descartou Not Fade Away e colocou no lugar desta uma música de sua autoria, Finding My Way. Em dois dias Terry Brown havia conseguido remixar tudo e o álbum estava completamente pronto. A gravadora London Records distribuiria o disco prensando inicialmente mil cópias. Em mais um ano de fé na banda, Ray Danniels bancou uma tiragem junto a London de 3.500 cópias. Estava tudo certo para o lançamento do disco em dezembro de 1973. Só que, por problemas econômicos que atingiram todo o mundo em decorrência da crise do petróleo, a aguardada estréia em vinil foi remarcada para janeiro de 1974. Pouco tempo depois, o Rush já abria shows em turnês de grupos como New York Dolls e ZZ Top. Muitas cópias do primeiro disco foram enviadas a gravadoras, selos, estações de rádios e produtoras de shows. Um exemplar foi parar nas mãos da DJ Donna Harper, da WMMS-FM (uma rádio de Cleveland), que passou a tocá-lo exaustivamente em sua programação. Devido à boa audiência de seu programa, Donna foi a maior responsável pela popularização do grupo canadense para o público americano. E foi lá, nos EUA, que as portas para o longo caminho de sucesso do Rush começaram a se abrir.
Com isso, no início de 1974, algumas rádios americanas receberam um pacote contendo um disco com uma capa simples, que trazia apenas a palavra 'Rush' em um tom forte de vermelho. Passaram a tocá-lo, confundindo muita gente que achava ouvir um novo LP do Led Zeppelin. As guitarradas "pageanas" de Lifeson e a estrutura das músicas baseada na mistura de blues pesado e hard rock apresentadas não eram novidade na época. Contudo, percebia-se claramente que existia uma personalidade musical forte e bruta, que poderia ser ainda amaciada e aperfeiçoada. Falando do disco em si, a abertura com Finding My Way demonstrava a necessidade do grupo em se libertar de qualquer amarra conservadora, indo em busca do seu próprio caminho. Porém, ao mesmo tempo, era visível a dubiedade do comportamento jovem em precisar voltar para o seu lar. Canções como What You’re Doing e Need Some Love entregavam o jogo, configurando as inquietações pós-adolescentes dos garotos apaixonados por música alta, pesada e de dinâmica variada. Já In The Mood percebia-se um lado sarcástico, enquanto Here Again era o que mais se aproximava de uma balada. Fechando o disco, Working Man, que possuía um riff carregado e marcante e que era, de longe, a faixa mais representativa do disco. Portanto, com esse trabalho, o Rush estreava de vez, colocando os pés nas fronteiras do rock internacional.
Em 1974, depois do lançamento do álbum de estréia do Rush, Donna Halper, uma DJ da rádio rock WMMS-FM de Cleveland (EUA), tocou pela primeira vez uma canção da jovem banda naquele país: Working Man. Assim nascia o Rush para o mundo. Um número considerável de pessoas tem perguntado sobre a história de como encontrei o Rush. Isso é algo sobre o qual não falo freqüentemente, visto que possa parecer uma atitude vaidosa ou egocêntrica. Contei a história para dois repórteres e escritores, e uma versão bem condensada surgiu. Era 1974, e eu estava sozinha em Cleveland. Não pretendo ser dramática – faz parte da história. Estava trabalhando para uma estação de rock, a WMMS-FM, que começava a se tornar o ícone do rock que seria durante muitos anos. Quando fui contratada, acho que o pessoal da rádio esperava receber uma 'garota hippie', porque era desse jeito que a maioria das mulheres desse contexto se vestia naquela época. Então, lá estava eu, longe de Boston (onde cresci), numa cidade onde não conhecia ninguém, trabalhando numa rádio onde festas eram muito comuns. Me senti totalmente deslocada quase que imediatamente: fui para Cleveland basicamente para tocar rock and roll e para ser diretora de uma rádio. Não sou festeira por natureza – na verdade sou bem tímida, a menos que esteja trabalhando. Estar no ar nunca me assustou: estar numa sala com pessoas que não conheço e ser esperada para dizer coisas inteligentes ainda me fazem ficar desconfortável. Adicione drogas dentro dessa mistura, e eu estaria REALMENTE desconfortável. Mas lá estava eu, determinada a fazer com que minha passagem pela WMMS fosse positiva. Mas vi claramente que o pessoal me achou bem estranha (uma DJ do rock que ensinava numa escola dominical não era algo normal). Por sorte, ser diretora de música era um trabalho que demandava muito tempo, então estava sempre ocupada ouvindo todos os álbuns que a WMMS me entregava todas as semanas e escolhendo os que poderia chamar a atenção da galera da rádio.


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